Lanterns, da HBO Max: onde ficou a Força de Vontade?
Lanternas, a nova série da HBO Max, já está no terceiro episódio. A trama promete um mistério ao estilo True Detective, estrelado por dois Lanternas Verdes queridos por gerações de fãs. A ideia parecia perfeita no papel. Na prática, a série parece empenhada em desmontar tudo o que sempre tornou a Tropa dos Lanternas Verdes tão especial.
Cresci lendo os quadrinhos da Liga da Justiça ainda criança. Naquela época, Hal Jordan era o Lanterna Verde mais conhecido. Nunca fui muito fã dele. Sempre achei o personagem um tanto sem graça e preferia acompanhar o Flash. Anos depois, já na adolescência, o desenho animado da Liga da Justiça trouxe John Stewart como o lanterna principal do grupo. Ali sim encontrei um herói com mais profundidade e presença de ação. Guy Gardner também apareceu nesse período, mas em gibis que eu não acompanhava. A fama de arrogante nunca me deixou simpatizar com ele.
Por isso, quando anunciaram uma série reunindo justamente Hal Jordan e John Stewart em um grande mistério, a expectativa ficou alta. E cresceu ainda mais quando descobri que Kyle Chandler daria vida a Hal Jordan. Ele é o protagonista de Edição de Amanhã, uma série que eu adorava. Mas assistir aos primeiros episódios de Lanternas foi ver, aos poucos, a ótima atuação do elenco se perder em um roteiro que erra o alvo.
Os Lanternas que eu conhecia não são estes
Um dos maiores problemas de Lanternas está na forma como o roteiro reescreveu os dois protagonistas. John Stewart deixou de ser o homem de ação, cheio de opiniões firmes e soluções criativas. Agora ele se desculpa por tudo e nunca se impõe. Ele até repete que não sente medo, mas essa frase soa mais como efeito do que como característica real do personagem.
Hal Jordan também mudou bastante. A série o transforma num herói cansado, quase envergonhado do que representa. Ele não usa mais o símbolo da tropa no peito e despreza o uniforme clássico. Ele trata o lema dos Lanternas Verdes como algo ridículo e ignora praticamente todos os protocolos da corporação. Isso soa estranho para um personagem que os quadrinhos sempre apresentaram como um dos Lanternas mais disciplinados do universo DC.
A série ainda traz uma escolha de roteiro envolvendo a forma como o anel escolhe seu próximo portador. Prefiro não detalhar esse ponto aqui para não estragar a surpresa de quem ainda vai assistir. Posso dizer, porém, que é um momento bastante controverso. Ele força a narrativa e passa a impressão de que, para elevar um herói, a trama precisava rebaixar outro. Discordo desse tipo de escolha.
O erro sobre a Força de Vontade em Lanternas
Os roteiristas repetem a frase “Você tem medo?” à exaustão em todos os episódios de Lanternas. Ela soa como se fosse a essência do que torna alguém digno de portar o anel. É como se a série sugerisse que John Stewart merece ser o próximo Lanterna Verde simplesmente porque o treinaram para não sentir medo.
O problema é que isso contraria a base dos quadrinhos. Um Lanterna Verde nunca tirou seu poder da ausência de medo. Ele tira seu poder da Força de Vontade. É justamente essa força que permite a um Lanterna enfrentar o medo e seguir em frente, não a falta dele. Ao colocar o medo no centro da história, Lanternas ignora o que sempre definiu a mitologia da tropa. Isso enfraquece o próprio conceito que deveria sustentar toda a trama.
Vale lembrar que, nos quadrinhos, o medo é justamente a fraqueza que a cor amarela explora. Ela representa o oposto da Força de Vontade que move os Lanternas Verdes. Mas um herói não deve se definir pela ausência de suas fraquezas. Ele deve se definir pela afirmação de suas qualidades. Não basta dizer que John Stewart não sente medo. A série precisa mostrar sua Força de Vontade, sua criatividade e sua capacidade de liderança. São essas características que fazem dele um grande Lanterna, muito mais do que a simples negação de um sentimento.
Ainda assim, pretendo continuar acompanhando a série até o final. A atuação de Kyle Chandler e do elenco segue sendo um dos poucos pontos positivos em meio a uma premissa cheia de falhas e decisões questionáveis sobre os dois personagens que marcaram minha infância e adolescência.

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